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Sr. Presidente
Ilustres Membros da Comissão
Na qualidade de Diretora-Geral da Organização
Mundial da Saúde, é com grande prazer que estou hoje aqui. Gostaria
primeiramente de agradecer o convite para falar a essa Comissão sobre o
assunto vital de acesso a medicamentos essenciais e vacinas.
Sinto-me muito encorajada pela importância que o Congresso e o
Governo Brasileiros atribuem a esse assunto.
Vou começar por uma declaração de princípios. As pessoas em nosso
planeta não necessitam sofrer a atual carga de doenças. A maioria das
doenças graves que afetam a saúde e o bem-estar das pessoas mais
pobres de nosso planeta poderia ser evitada. Primeiramente, porém, as
pessoas em risco devem ser capazes de ter acesso a cuidados de saúde
– incluindo vacinas, tecnologias e medicamentos essenciais. Milhões
não o conseguem – não podem obter a ajuda de que necessitam, quando
a necessitam. Em resultado disso, sofrem, tornam-se mais pobres e podem
morrer mais cedo.
O serviço de saúde de um país não pode responder às necessidades
da população a não ser que permita às pessoas acesso a medicamentos
essenciais de qualidade garantida. Na verdade, este acesso representa
uma medida importante da qualidade dos serviços de saúde. É um dos
indicadores chave de eqüidade e justiça social.
O conceito de medicamentos essenciais é amplamente aceito atualmente
como uma abordagem para o fornecimento de uma assistência de saúde
moderna, baseada em evidências e custo-efetiva. Esse conceito focaliza
as decisões terapêuticas, a formação profissional, a informação
para a população e os recursos financeiros naqueles medicamentos que
representam o melhor equilíbrio de qualidade, segurança, eficácia e
custo para uma dada situação de saúde. Sistemas de saúde de todos os
tipos, desde sistemas básicos nos países mais pobres a esquemas de
seguros nacionais de saúde altamente desenvolvidos nos países mais
ricos, reconheceram os benefícios terapêuticos e econômicos de uma
abordagem de medicamentos essenciais.
Na implementação das Políticas Nacionais de Medicamentos,
recomendadas pela OMS, vários países atualmente promovem duas grandes
linhas políticas. A primeira é fundamental e envolve a promoção de medicamentos
essenciais como a melhor abordagem sob o ponto de vista da
saúde; essa abordagem é suplementada pela promoção do uso de medicamentos
genéricos de qualidade como uma estratégia importante para
promover tanto preços que podem ser pagos quanto acesso.
A Política Nacional de Medicamentos, lançada pelo Governo em 1998
num processo de ampla consulta com todos os envolvidos, segue os
princípios e estratégias de medicamentos essenciais recomendados e
promovidos pela OMS. Certamente os senhores gostarão de saber que um
resumo da Política Nacional Brasileira de Medicamentos foi publicado em
espanhol, inglês e francês pelo Departamento de Política de
Medicamentos e Drogas Essenciais da OMS. A política brasileira é
apresentada como um bom exemplo para países nesta região e em outras
partes do mundo.
Nos últimos vinte anos, já se obtiveram grandes resultados na
expansão do acesso a medicamentos e vacinas. Entretanto, ainda temos um
longo caminho à nossa frente antes que todas as pessoas possam obter os
medicamentos e vacinas de que necessitam a um preço que possam pagar.
No início do século 21, um terço da população mundial ainda não
tem acesso aos medicamentos essenciais de que necessita para uma boa
saúde. Nas regiões mais pobres da África e da Ásia, mais de 50% da
população não tem acesso aos medicamentos mais vitais.
Segundo os últimos dados que a OMS irá apresentar no próximo
Relatório Mundial da Saúde, 10,3 milhões de crianças abaixo de 5
anos de idade morreram em países em desenvolvimento no ano passado.
Cerca de 8,6 milhões dessas mortes são devidas a agravos
transmissíveis, perinatais e nutricionais. Uma grande proporção
poderia ser evitada caso as pessoas em risco pudessem Ter acesso a
medicamentos essenciais.
Todos nós acostumamo-nos a ouvir cifras como estas; não esquecemos
que descrevem uma ineqüidade escandalosa. Todos nós que trabalhamos em
parceria neste esforço precisamos responder estrategicamente a esse
desafio. Fico muito satisfeita em saber que o Brasil está mostrando o
que é necessário, empreendendo importantes esforços para melhorar o
acesso a medicamentos essenciais e assim promover a eqüidade na saúde
da sua população.
Países em desenvolvimento, com três quartos da população do
planeta, recebem apenas entre um quarto e um terço da renda gerada pela
economia mundial. Enquanto países desenvolvidos encaram o controle de
custos de despesas com medicamentos como uma questão de grande
importância, países em desenvolvimento ainda enfrentam problemas como
o alto custo de medicamentos essenciais novos, a falta de uma infra-estrutura
de cuidados primários de saúde, recursos insuficientes para a saúde e
produtos farmacêuticos e, ocasionalmente, a gerência ineficaz dos
recursos disponíveis.
O acesso a medicamentos é um componente crítico de uma estratégia
do setor saúde. Os governos enfrentam escolhas difíceis: não podem
investir em poucos medicamentos caros e ignorar todos os outros aspectos
da assistência. Cabe a nós ajudá-los a tornar essas escolhas menos
difíceis.
Muitos fatores determinam a complexa questão de acesso, tais como
sistemas de distribuição, financiamento, compras e preços.
Medicamentos não são produtos comuns; sua aquisição, armazenagem,
inspeção e distribuição exigem capacidades especiais.
Em consonância com a Estratégia Revisada para Medicamentos adotada
no ano passado pela Assembléia Mundial da Saúde, a OMS, em estreita
cooperação com a Organização Mundial do Comércio e a Organização
Mundial de Propriedade Intelectual, está pronta para assessorar
ministérios de saúde sobre como avaliar as conseqüências de acordos
internacionais de comércio sobre a saúde pública. Isso inclui
informá-los sobre cláusulas relativas às salvaguardas de saúde
pública incluídas como parte do acordo TRIPS.
Precisamos agora estudar como as regras e regulamentos mundiais
funcionam na prática. Um dos pressupostos de direitos de propriedade
intelectual mais fortes era que haveria mais pesquisa, desenvolvimento e
produção em países em desenvolvimento e que os preços cairiam. Temos
que perguntar: isto está acontecendo?
A posição da OMS a respeito de direitos de propriedade intelectual
é clara: eles devem ser protegidos. Dependemos deles para estimular a
inovação. As patentes de produtos farmacêuticos devem ser gerenciadas
de modo imparcial, protegendo-se o interesse do detentor da patente ao
mesmo tempo em que salvaguardam-se princípios básicos de saúde
pública.
Não existem soluções simplistas nem soluções mágicas.
Entretanto, a complexidade é um desafio, não um obstáculo. Há
várias possibilidades a serem exploradas.
A OMS apoiará qualquer medida que aumente o acesso a todos os
produtos farmacêuticos essenciais de um modo sustentável. Temos de
descobrir um modo de ligar as questões de viabilidade comercial e
direito ao acesso.
Precisamos construir novas pontes entre o fornecimento e a demanda.
As falhas hoje existentes são um gigantesco fracasso de mercado. Para
termos sucesso, necessitaremos amplas parcerias entre governos em
países industrializados e em desenvolvimento, instituições
financeiras, e a indústria farmacêutica. Precisaremos construir um
consenso emergente sobre as necessidades dos pobres e as exigências
básicas para melhorar seu acesso a medicamentos salvadores.
Como podemos chegar a uma situação em que os pobres tenham um
acesso sustentável a medicamentos a preços que possam pagar? As
companhias farmacêuticas têm uma obrigação moral de contribuir para
a solução. Entretanto, também precisamos ver a queda de barreiras
tarifárias protetoras e de margens de distribuição, e precisamos
obter aceitação política para o conceito de "preço-eqüidade",
especialmente no caso de medicamentos essenciais novos de importância
vital para a saúde pública.
Preço-eqüidade significa que as populações mais pobres não
teriam que pagar o mesmo preço por medicamentos salvadores que outras
populações em melhores condições econômicas.
Aceitar esse princípio é uma decisão política, e os governos de
países industrializados devem assumir a liderança para estabelecê-lo.
Enquanto isso, os governos de países em desenvolvimento devem fazer sua
parte para facilitar o acesso, melhorando seus sistemas de financiamento,
importação, aquisição e distribuição de medicamentos, vacinas e
equipamentos médicos.
A OMS levará adiante esse debate de saúde pública, com nossos
Estados Membros, nossos outros parceiros na Organização das Nações
Unidas, a sociedade civil e a indústria.
As estratégias e políticas de combate à pobreza e garantia de
acesso à saúde e a produtos farmacêuticos num país tão vasto e
complexo quanto o Brasil devem ser abrangentes e claramente orientadas
para garantir o acesso de toda a população a serviços de saúde e a
medicamentos.
Dada a ênfase em garantir o acesso a medicamentos, a Política
Nacional Brasileira de Medicamentos também salienta medicamentos
genéricos, estipula a adoção obrigatória de nomes genéricos em
todas as compras públicas e promove a prescrição e o uso de
medicamentos genéricos como um de seus componentes principais.
Não desejo propor uma definição universal de um medicamento "genérico".
Nesta área, as opiniões divergem. Para os fins desse encontro,
permitam-me considerar "medicamento genérico" uma "cópia
de um produto original, comercializado, cuja patente expirou, e que é
comercializado como sendo equivalente à marca original, podendo
portanto ser utilizado em seu lugar".
Em termos das reformas do setor saúde, estratégias de genéricos
podem auxiliar a atingir os objetivos, ao melhorar a capacidade de pagar,
reduzir os custos, ampliar a escolha e ajudar a racionalizar tanto a
seleção quanto o uso de produtos farmacêuticos.
Uma vez que essas estratégias podem tornar os mercados de
medicamentos mais competitivos e eficientes e podem contribuir para os
objetivos de maior eqüidade, qualidade e eficiência em saúde, seu
valor como medidas de reforma é significativo. As atuais mudanças no
setor saúde do Brasil representam uma excelente oportunidade para
promover tais estratégias e beneficiar-se delas.
Políticas de promoção de genéricos freqüentemente estão
associadas apenas ao setor público. Entretanto, essas estratégicas
podem ser igualmente benéficas para o setor privado, porque promovem a
eficiência em mercados de produtos farmacêuticos. Isto é
particularmente importante em países em desenvolvimento, onde até 90%
do consumo de medicamentos ocorre no setor privado. Conseqüentemente,
como no caso da reforma do setor saúde em geral, uma política de
genéricos será mais bem sucedida e gerará maiores benefícios se for
abrangente; deve ser implementada tanto no setor público como no
privado, a fim de cobrir todos os grupos da sociedade.
De qualquer maneira, a separação público-privado na área de
produtos farmacêuticos é, de certo modo, artificial. Profissionais de
saúde podem trabalhar em ambos os setores e os pacientes podem receber
no setor público receitas que são aviadas no setor privado. Dado que
– em muitos países – a grande maioria dos produtos farmacêuticos
é obtida no mercado privado, os benefícios de estratégias de
genéricos somente podem ser concretizados quando elas são amplamente
aceitas tanto no setor público como no privado.
A política de medicamentos essenciais recomendada e promovida pela
OMS identifica quatro elementos chave para garantir o sucesso de um
programa de medicamentos genéricos:
-
Legislação e regulamentações que o apóiem;
-
Capacidade nacional para a garantia de qualidade;
-
Aceitação pelos profissionais e pela população;
- Incentivos econômicos e informação.
Em outras palavras, as estratégias de genéricos envolvem muito mais
do que os mandados legais; são processos exigindo apoio e cumprimento,
devem responder às preocupações das partes envolvidas e devem
fornecer incentivos econômicos adequados.
Na América Latina, vários países já promulgaram leis relevantes
para estratégias de genéricos, mas, na maioria dos casos, sua
implementação ainda é limitada. De um modo geral, os resultados
indicam que, onde há uma legislação sólida e transparente, observam-se
preços mais baixos.
Nos Estados Unidos da América, os medicamentos genéricos
representam metade do mercado, em termos de volume. Embora esta fatia de
mercado seja uma das mais altas do mundo, o processo que levou até ela
foi longo e conturbado. Muitos hospitais em países desenvolvidos têm
listas de medicamentos aprovados que identificam os produtos por seu
nome genérico.
A União Européia chegou a um acordo sobre três importantes
regulações de política a respeito de preços e reembolso de produtos
farmacêuticos:
(i) conter o crescimento de despesas com produtos farmacêuticos;
(ii) aumentar a concorrência, aumentando a transparência do mercado
e estimulando os genéricos;
(iii) aumentar o conhecimento dos pacientes sobre custos,
fornecendo-lhes melhores informações sobre as razões custo-benefício
de alternativas terapêuticas.
Há muito tempo, a OMS vem encorajando políticas de medicamentos
baseadas na promoção de medicamentos genéricos de qualidade garantida.
Esta estratégia comprovou ser custo-efetiva para conter os gastos com
medicamentos.
A OMS é, portanto, favorável aos chamados "early
workings" de medicamentos patenteados para fabricantes genéricos,
a fim de estimular a concorrência; esta também é uma importante
motivação na pesquisa por melhores produtos. Isto inclui o uso de
medicamentos patenteados para pesquisas e testes, o que requer um
registro rápido e a produção precoce de medicamentos genéricos.
Países com variações das cláusulas de "early workings"
incluem a Argentina, Austrália, Canadá, Estados Unidos, Hungria e
Israel.
Senhor Presidente,
Torna-se cada vez mais claro que a pobreza não apenas causa a
doença, mas que a doença ou má situação de saúde mantém as
pessoas na pobreza. Temos indicações convincentes que investir em
saúde é um modo mensurável, orientado para resultados e efetivo para
reduzir a pobreza. Se existe um elemento universal presente em todas as
transições econômicas nos últimos dois séculos, é que um melhor
nível de saúde resulta em menor mortalidade infantil e maior
esperança de vida.
O acesso universal a medicamentos essenciais e vacinas também é um
atalho para menor mortalidade e melhor saúde de toda a população.
Melhorar esse acesso é uma das mais efetivas intervenções de saúde
que qualquer país pode fazer.
A saúde não é uma questão periférica com a qual apenas economias
mais afluentes podem dar-se ao luxo de gastar, e sim um elemento central
do desenvolvimento. E o acesso a medicamentos é um elemento central de
qualquer política de saúde.
Nossa missão comum é a de tornar medicamentos disponíveis a todos
os que deles necessitam, independentemente de sua renda. Isto é
possível – se agirmos juntos.
Obrigada. |