Senhor Presidente,
Senhores Ministros,
Dr. Samba,
Colegas,
Senhoras e Senhores,
Assistir ao Comité Regional Africano representa um momento muito especial para mim.
Este é o meu primeiro comité regional como Directora Geral.
E este momento é especial pois que a África representa uma prioridade absoluta para a
OMS. Ninguém pode deixar de estar de acordo: ao iniciar um novo século, precisamos de
ressuscitar a solidariedade internacional em relação à África. O século que viu a
independência dos países africanos não conseguiu, apesar dos progressos realizados em
muitas frentes, encarreirar a África com firmeza para a esperança e a prosperidade.
Dirigir-vos hoje a palavra e ter a oportunidade de escutar e aprender com as vossas
discussões é um privilégio para mim. Aproveitarei a ocasião para levantar certas
questões que penso serem importantes para a África. No final dos trabalhos discutirei
convosco as alterações iniciadas com os meus colegas no Secretariado da OMS - um
processo que tem por objectivo melhorar o trabalho - especialmente para a África e os
seus países.
É na África que a necessidade e o potencial são maiores. Tenho por ambição fazer
uma distinção.
Olhemos à nossa volta: nunca tantos seres humanos tiveram tão grandes oportunidades.
Nunca os nossos conhecimentos foram tão grandes. Nunca houve um tal fluxo constante de
novas descobertas e progressos no campo da saúde - quando o preço de alguns aviões de
combate pode aliviar tanto o fardo da doença.
Contudo, no mundo em desenvolvimento, a população acarreta com mais de 90% dos
problemas de saúde, e só tem acesso a 10% dos recursos utilizados para a saúde. Esta
situação é inaceitável. Esta situação tem de mudar. Com o fim da Guerra Fria
surgiram grandes esperanças de um bónus de paz para progresso da humanidade. Mas muitos
países pareceram abandonar a África.
Na vossa agenda há temas importantes para a saúde da Africa. Permitam-me analisar
alguns dos desafios mais importantes tal como eu os vejo.
Primeiro, a maior ameaça para a saúde - a ameaça da pobreza.
Má saúde conduz a pobreza e pobreza gera má saúde.
No campo da saúde precisamos de ter uma perspectiva global. A saúde é um bem
essencial para cada ser humano, mas é mais do que isso: é a verdadeira base do
desenvolvimento humano. As raízes profundas dos desafios de saúde mundiais ainda estão
ligadas à pobreza e ao subdesenvolvimento.
É preciso um esforço novo e vigoroso para fazer passar a mensagem - mesmo o acesso
mais básico a serviços de saúde é um investimento no desenvolvimento socioeconómico
da sociedade. Investir na saúde pode ter um efeito importante para quebrar o ciclo
vicioso que liga a pobreza e a má saúde.
Acredito que neste esforço podemos ter êxito. Estamos a recolher dados evidentes que
ilustram os laços fundamentais entre saúde e desenvolvimento.
Não precisamos de chamar a atenção dos Ministros da Saúde - os senhores já sabem.
Mas precisamos de ir mais longe e dizer aos Presidentes, aos Primeiros Ministros e aos
Ministros das Finanças que, na realidade, todos eles são ministros da saúde. Investir
na saúde dá resultados tangíveis. Quebra do ciclo da pobreza. Melhores trabalhadores.
Estudantes mais receptivos, capazes de controlar o recurso fundamental do século XXI,
especialmente na África - o recurso humano e a base dos conhecimentos. Menos custos
sociais. Menos tensões mentais. Mais progresso humano.
Segundo - que não podemos deixar de lado - os conflitos mortais que continuam a
assombrar o continente.
Enquanto houver guerra e conflitos armados nunca conseguiremos ter saúde para todos. A
África continua a ter o seu trágico quinhão. O vosso escritório regional teve de ser
transferido devido a um conflito armado. Esperamos que possa voltar muito brevemente.
Mas surgem novos conflitos, muitas vezes destruindo décadas de desenvolvimento e
resultados conseguidos com custo. Desde 1980 tais conflitos causaram mais de 4 milhões de
mortes na África. Só isto infligiu um custo médio calculado em 13 biliões de dólares
anuais à região da África. É uma soma espantosa, especialmente se calcularmos o que
poderia representar em termos de vacinas e cuidados primários de saúde.
Os conflitos levam à destruição de infra-estruturas físicas. Provocam rupturas
sociais, deixando mulheres e crianças especialmente vulneráveis. Desmembramento de
comunidades. Deslocações em massa. Levam à transferência de despesas de necessidades
sociais para necessidades militares. Em resumo - pobreza e saúde precária.
O que é que a OMS pode fazer? A vossa voz fez-se ouvir há dois anos quando o Comité
Regional sublinhou a necessidade absoluta de paz para desenvolvimento sanitário e humano
durável. A OMS tem de levar tal mensagem à comunidade internacional.
E a OMS tem de ajudar as vítimas dos conflitos - apoiar serviços de saúde adequados
para refugiados, cuidados de urgência, reabilitação para feridos e enfermos.
Podemos conseguir resultados. Há alguns anos muita gente pensava que não se poderia
parar com a proliferação das minas. Mas no ano passado, com a assinatura da convenção
contra as minas antipessoais, conseguiu-se dar um passo gigantesco para atingir tal
objectivo. Deve entrar em vigor brevemente e devemos aplaudir quando o 40º estado
ratificar a convenção que passa a fazer parte das leis internacionais.
Para evitar os conflitos precisamos de juntar os nossos esforços. Os conflitos actuais
são mais vezes internos do que entre países. Precisamos de nos concentrar nas raízes
mais profundas dos conflitos: pobreza, crescimento populacional, degradação do meio
ambiente e falta de oportunidades económicas. Tais são as raízes dos conflitos que
devemos procurar resolver antes que se degradem e os custos se tornem enormes. Ler o
Relatório sobre o Desenvolvimento Humano ou o Relatório Mundial da Saúde pode explicar
melhor a necessidade de acções preventivas do que contar as armas existentes em cada
campo de luta potencial. Devemos manter as questões de sobrevivência na agenda
internacional.
Terceiro, vou virar a minha atenção para metade da população mundial - as
mulheres. Senhores Ministros da Saúde, queiram fazer o mesmo. É altura de dizer: as
mulheres africanas são o maior recurso não utilizado do continente.
Quando se educa uma mulher, educa-se uma família. Investir nas mulheres dá grandes
compensações tanto económica como socialmente. As mulheres não só educam as
gerações futuras como também prestam a maior parte dos cuidados de saúde a doentes, a
enfermos e a necessitados.
Os problemas de saúde que as mulheres têm de enfrentar estão parcialmente
relacionados com a sua condição social e papéis que desempenham. Em geral, as mulheres
vivem mais tempo do que os homens, mas não têm necessariamente vidas mais saudáveis.
Mas a saúde reprodutora da mulher é do interesse das mulheres e dos homens. É preciso
que a maternidade seja segura mas também que a paternidade seja responsável.
Em muitas sociedades as raparigas são sujeitas a discriminação mesmo desde a
concepção. Onde a condição feminina é baixa, a saúde, educação e necessidades
emocionais das mulheres são consideradas secundárias em relação aos homens. As
raparigas comem no fim e pior, são sobrecarregadas com trabalho e pouco instruídas e
algumas vezes só podem mostrar o seu valor gerando muitos filhos desde uma idade muito
jovem.
Deparamos com descuido, violação e opressão. Raparigas e mulheres são as vítimas
principais de infanticídio, mutiliações genitais, má nutrição e anemia. Gravidez
precoce, aborto, doenças transmitidas por contacto sexual, VIH/SIDA vêm juntar-se ao
fardo total.
Maternidade segura significa famílias seguras. Mulheres saudáveis significam
populações saudáveis. Precisamos de fazer passar a mensagem.
Quarto, vejamos as crianças africanas.
Em alguns paíse africanos, 20% das crianças ainda morrem antes de atingirem os cinco
anos de idade. Em cada dez mortes infantis na África, sete são devidas a paludismo,
infecções respiratórias agudas, diarreia, sarampo e má nutrição.
Temos de inverter esta tendência. A OMS consagra-lhe grande prioridade - trabalhando
com os países na África - com o Escritório Regional e todas as pessoas dedicadas que
aqui trabalham. Vejamos a Gestão Integrada de Doenças Infantis. Dezanove países
africanos estão a aplicar esta abordagem que os ajuda a reduzir mais eficazmente o
número de casos.
A vacinação continua a ser das intervenções disponíveis mais vantajosas.
Progressos tecnológicos abrem novas prespectivas com as quais não sonhávamos há alguns
anos. Vamos talvez a caminho de vacinas eficazes contra o VIH. Seremos talvez capazes de
evitar o paludismo. Não amanhã mas num futuro próximo - um futuro que também deve
estar ao alcance da África.
Mas o desafio é complexo. Estamos a eliminar doenças como a varíola. Devemos ser
capazes de acabar com a polio. Mas também podemos falhar - na recta da chegada se os
fundos faltarem - e se os países - também aqui na África - não o levarem a sério.
Tenho pedido muito um novo esforço para financiar a milha extra da maratona contra a
polio. Parceiros importantes como o Rotário Internacional estão prontos a fazer mais um
esforço. E peço-vos com fervor para manter a vigilância até a polio entrar nos anais
dos fardos do passado.
Em muitos países africanos o acesso a medicamentos e inovações científicas é ainda
muito pouco equitativo. O sector público pode ter falta de medicamentos essenciais
enquanto farmácias particulares os têm em grandes quantidades mas só economicamente
acessíveis a uns poucos. Alguns países chegam a gastar 20 a 40% dos orçamentos de
cuidados de saúde com a importação de medicamentos.
A indústria deve instigar novos medicamentos e novas vacinas. Nós devemos instigar
financiamentos e um sistema de distribuição que possa tornar os progressos disponíveis
e acessíveis a todos - especialmente aos que têm mais necessidade.
Muitos aqui presentes lembrar-se-ão do debate acalorado sobre a Estratégia sobre
Medicamentos que teve lugar durante a Assembleia Mundial da Saúde. O Conselho Executivo
continuará a discutir esta questão que recebeu a minha imediata atenção.
Estamos à procura do bom equilíbrio. As estratégias nacionais devem assegurar
equidade no acesso, utilização racional e qualidade nos medicamentos existentes.
Ao mesmo tempo, para satisfazer as necessidades urgentes da saúde pública, precisamos de
novos medicamentos e vacinas. Isto é verdade para doenças que surgem, mas também
é verdade para o caso grave da resistência crescente que desenvolveram certos agentes
patogénicos correntes responsáveis por paludismo, tuberculose, meninigite bacteriana e
pneumonia.
Para elaborar novos medicamentos precisamos de pesquisa e indústria inovadoras, com
incentivos apropriados para inovação. Vejo isto tudo como uma parte integrante de saúde
pública numa vasta perspectiva.
A OMS tem a responsabilidade primordial de fazer elaborar medicamentos essenciais e de
os pôr à disposição de quem deles precisa. Novos acordos comerciais internacionais
representam novas oportunidades, deafios, mas também incertezas. Precisamos de analisar e
controlar para ver como tais acordos podem apoiar a saúde pública.
Precisamos de fazer isto - e os senhores - os governos precisam também de o fazer.
Antes das questões comerciais atingirem a mesa das negociações internacionais, é
preciso que as necessidades de saúde pública sejam perfeitamente estudadas na mesa das
negociações nacionais. Os governos devem ser consistentes e a mensagem sobre a sua
política que devem enviar às diferentes organizações internacionais deve ser a mesma.
Não podemos cortar o mundo em bocados - um para a saúde, um para o comércio e um para o
meio ambiente.
A OMS falará com franqueza. A OMS será mais activa e verbal no seu diálogo com a
Organização do Comércio Internacional. O nosso Programa de Acção sobre Medicamentos
Essenciais continuará a trabalhar com os países para encontrar a melhor maneira de
melhorar a disponibilidade e acessibilidade dos medicamentos, o que significa trabalhar
ainda mais estreitamente com os Ministérios da Saúde. Mas também significa trabalhar
com o sector privado e a sociedade civil - organizações professionais, ONG, e
indústria.
Convidei a indústria em geral - incluindo a indústria farmacêutica - a sentar-se
connosco para estabelecer cuidadosamente os desafios e obter uma ideia mais clara do que
podemos obter em conjunto e dos nossos pontos de divergência. Acredito que se pode
aproveitar muito. As companhias farmacêuticas locais e internacionais, de medicamentos
genéricos ou de medicamentos novos, devem ficar a saber que trabalhar com a OMS significa
desenvolver novos mercados - mercados duráveis - e contribuir para melhor saúde
pública.
Quinto, vou abordar três questões urgentes que, de uma maneira ou outra, estão
estreitamente ligadas: a pandemia de VIH/SIDA, o programa Fazer Recuar o Paludismo e a
reforma do sector da saúde.
Sabem qual é o desafio do VIH/SIDA que enfrentamos e a importância
aterradora dos números.
Nos próximos anos aumentará a mortalidade por VIH/SIDA, invertendo parcialmente o que
se ganhou em sobrevivência infantil com tanta dificuldade, também invertendo outros
pontos sociais e económicos dificilmente ganhos. O VIH é agora um problema de
adolescentes: dos novos casos de infecções metade são de jovens. Estamos realmente a
presenciar uma ameaça gradual às estruturas económicas, sociais e consequentemente
mesmo políticas da África sub-sariana.
Temos de enfrentar este desafio. Os governos devem intensificar de maneira importante a
resposta ao VIH/SIDA. A epidemia não está controlada em nenhum país africano. Contudo
os conhecimentos, a tecnologia e as estratégias existem para refrear a propagação do
vírus e atenuar o seu impacto.
A OMS acaba de assumir a presidência dos co-patrocinadores de UNAIDS. Daremos todo o
nosso apoio aos esforços de UNAIDS e prestaremos maior atenção à maneira da OMS
enfrentar a epidemia de VIH em todas as partes do seu trabalho - através dos programas -
como uma parte integrante do nosso trabalho e da nossa política.
Deixem-me abordar uma questão difícil - a transmissão do VIH da mão para a criança
através da amamentação. É verdade que está provado que pode acontecer e nós devemos
enfrentar o facto. Mas antes de tirar conclusões vamos reflectir cuidadosamente. As mães
necessitam de orientação correcta e prudente.
É da maior importância evitar que as mulheres tenham medo de amamentar.Ainda devemos
continuar vigilantes contra vendas agressivas de substitutos de leite materno que
geralmente destroem a amamentação. Podem perder-se décadas de trabalho e no fim são as
crianças as prejudicadas. Nada pode alterar o facto básico que a amamentação continua
a ser a melhor prevenção contra má nutrição e doenças infecciosas.
Há outra situação intolerável no continente. Em 1995, segundo UNAIDS, uma em cada
quatro transfusões sanguíneas realizadas na África sub-sariana não é analisada para
detecção do VIH.
A tecnologia que torna o sangue mais seguro, não somente no caso do VIH mas também no
de outros agentes infecciosos transmitidos pelo sangue, existe comercialmente. Peço aos
governos africanos para continuarem os seus esforços para aumentar a segurança em
relação ao sangue. A OMS fará um esforço especial para alargar o seu apoio a
iniciativas nacionais empenhadas neste objectivo e que reduzirão a disparidade existente
no mundo em relação a acesso a sangue inócuo.
No acesso a tratamento há grandes disparidades - tais como as terapias
anti-retrovirais muitíssimo eficazes. A OMS está muito empenhada em estudar maneiras e
meios para reforçar cuidados de qualidade no mundo em desenvolvimento. Tais terapias já
existem nestes países mas só são acessíveis às poucas pessoas economicamente capazes
e não às muitas outras que não o são. A questão já não é de saber se tais
medicamentos caros e de utilização complicada devem estar presentes, mas sim como.
Não podemos concluir, a partir de informações de fraca qualidade, que tais medicamentos
não têm lugar em economias fracas.
A obrigação dos governos e das organizações internacionais que os apoiam é
demonstrar de que maneira e até que ponto a África pode beneficiar dos resultados das
descobertas científicas na elaboração de novos medicamentos contra o VIH/SIDA.
Temos então outro grande assassino - o paludismo.
Perante a Assembleia Mundial da Saúde, prometi a liderança da OMS na luta destinada a
Fazer Recuar o Paludismo
Todos os dias morrem 3000 crianças devido ao paludismo. Todos os anos há 500 milhões
de casos em crianças e adultos. Muitos dos que estão infectados mas não morrem sofrem
danos permanentes, As consequências económicas são espantosas e por isso o paludismo é
não só um agente destruidor mas também um inimigo do desenvolvimento económico.
Após a minha visita a vários países africanos no outuno passado, fiquei convencida
não só pela importância do problemas mas também pela resposta
da África à ameaça. Para mim era evidente: a OMS deve escutar o apelo da África.
Certas pessoas poderão dizer: porquê o paludismo? - é uma tarefa demasiado
assustadora. Já houve tentativas mas não conseguimos ter grandes êxitos. A isto
respondo: a OMS ficaria longe das realidades se não respondesse.
Temos consciência das complexidades. Fazer Recuar o Paludismo não dará uma resposta
rápida. Será o esforço de uma geração. Não podemos pensar em erradicação, mas
podemos reduzir enormemente a morbidade e a mortalidade. Podemos reforçar os sistemas de
saúde que assim ficarão mais capazes de enfrentar o desafio representado por outras
doenças transmissíveis. O que aprendermos com o reforço dos sistemas de saúde e
assistência a pessoas vulneráveis ajudará a nossa luta contra a epidemia de VIH e uma
futura luta para Fazer Recuar a Tuberculose.
A África lancará os nossos esforços destinados a Fazer Recuar o Paludismo. Este
programa funcionará como uma vasta parceria mundial, construindo uma aliança entre
estados membros, Banco Mundial, PNUD e outras agências das NU, sector privado, comunidade
de investigação e sociedade civil.
Convidamos outros parceiros a aproveitar esta oportunidade e apoiar os nossos esforços
para fazer recuar o maior assassino de crianças em tantos países africanos. Logo após a
Assembleia Mundial da Saúde, os G7 reunidos em Birmingham declararam-se prontos a dar o
seu apoio. Chegou a altura de avançar.
Trabalharemos sistematicamente com o Escritório Regional e os representantes da OMS.
Para o posto de Gestor de Projecto postularam mais de 70 pessoas com as necessárias
qualificações e penso proceder à nomeação dentro de poucoa dias. Passo a passo, nas
próximas semanas e meses, os projectos iniciarão o seu trabalho.
Como um denominador comum a todos os desafios que levantei - e sabemos que há muitos
mais - devemos perguntar: como poderemos construir sistemas de saúde duráveis
capazes de aguentar alterações e problemas económicos? Como poderemos assegurar acesso
a serviços de saúde básicos quando as bases das finanças públicas desabam?
A tragédia da África é que ainda enfrentamos ameaças importantes de doenças
infecciosas. Sofremos a epidemia silenciosa representada pelas doenças
não-transmissíveis, a saúde mental e o envelhecimento. Enfrentar tudo ao mesmo tempo é
extremamente difícil e exigirá uma nova reflexão sobre a maneira de ser bem sucedido em
políticas de prevenção, de treinar os nossos trabalhadores de saúde e de financiar os
nossos serviços.
Tomemos o caso do tabaco. Não tratada, a doença resultante do consumo de tabaco pode
vir a ser em algumas décadas o fardo sanitário simples mais importante, mesmo na
África.
Segundo os seus padrões de doença, as suas instituiçnoes, os seus recursos e as
necessidades da sua população, cada país deve escolher a sua própria via. Eu penso que
há dois caminhos paralelos:
Primeiro, precisamos de trabalhar em contacto com outros sectores. Muitos factores
determinantes de melhor saúde encontram-se fora do sistema de saúde. Em melhor
educação. Meio ambiente mais
limpo. Diminuição constante da pobreza. Cada sector da saúde - cada ministério da
saúde - e no contexto mundial a OMS - devem ser defensores activos e conhecedores de
políticas a favor da saúde.
Segundo, devemos pensar em reformar o sector da saúde.
Os rendimentos das forças de mercado têm aumentado enormemente a produtividade em
muitos sectores da economia mundial. Mas na saúde não se conseguiram os mesmos êxitos.
Em termos gerais, o sector privado pode ser bom a atribuir recursos de maneira rentável.
Mas o sector privado - a indústria privada - nunca será o principal fornecedor de
centros primários de saúde nem o fiador de serviços de saúde para os pobres. Também
não garantirá o acesso universal.
Os governos deveriam ter a responsabilidade essencial de garantir o acesso a cuidados.
Só o sector público pode garantir direitos universais básicos. É bom não esquecer
neste ano do 50º aniversário da Declaração dos Direitos do Homem.
Muitos governos - principalmente na África - têm grandes problemas com as suas
finanças públicas e esticaram as suas capacidades para fornecer serviços. Precisamos de
começar a discutir sobre normas e padrões de um "novo universalismo" - uma
nova maneira de enfrentar uma cobertura universal. Isto será uma questão essencial no
programa de cada país. Assim deve estar na mesa de trabalho da OMS e estamos a organisar
parte do nosso trabalho para nos ocuparmos de maneira eficaz.
O acesso universal a serviços de qualidade é um princípio inabalável. Os governos
devem fornecer liderança estratégica - estabelecendo prioridades - não esquecendo que
há limites nos cuidados que os governos podem fornecer, limites que cada país deve
estabelecer por si mesmo. Mas o estabelecimento de prioridades e a definição de limites
exigem que se saiba quais são os esforços que terão o melhor impacto, atingirão mais
pessoas, e conseguirão os resultados mais eficazes. Nesse processo, a OMS deve estar
presente com os seus conselhos.
Depois precisamos de ir mais longe. A prestação de serviços financiados pelo governo
deve ter a origem mais eficiente. Isto pode significar a utilização de agentes do sector
privado. Ou de ONG. Seja qual for a situação, os governos devem procurar obter
competências para responder às suas responsabilidades em cuidados universais.
Como último ponto, vou falar de alguns elementos essenciais do processo de reformas
iniciado por mim na OMS.
Tendo tomado posse do meu cargo a 21 de Julho, nomeie uma nova equipa superior de
gestão a nível da sede. É composta de cinco membros do Sul e cinco membros do Norte.
Seis mulheres e quatro homens. Todas as regiões da OMS estão representadas. É uma forte
equipa mundial.
Juntamente com os Directores Regionais, os representantes da OMS e mais de 3500
empregados, iniciámos um processo de mudanças de acordo com as linhas que apresentei à
Assembleia Mundial da Saúde em Maio. Estas são as principais directivas:
Primeiro - devemos garantir uma melhor unidade dos objectivos que queremos
atingir. Não podemos fazer tudo - mas devemos ser muito bons naquilo que decidirmos
fazer.
Devemos ser capazes de dizer que a OMS é uma só entidade. Não duas - a
financiada pelo orçamento regular e a outra financiada pelas contribuições
voluntárias. Não sete - Geneva e as seis regiões. E não mais de 50 - todos os
diferentes programas da Organização.
A OMS deve estabelecer as suas prioridades, angariar recursos adicionais e exprimir-se
como uma entidade individual. Não devemos esquecer que, atendendo ao seu mandado e às
necessidades não satisfeitas, a OMS é uma organização pequena. Também não é
distribuidora de cuidados de saúde. As autoridades nacionais e regionais são, assim como
as ONG, fornecedores privados e comunidades. Vossas Excelências são. A diferença pode
ser conseguida pelos nossos esforços combinados.
Na sede juntámos os programas em nove grupos - cada um com uma mensagem clara sobre o
seu objectivo. Nos próximos meses, sob a orientação dos Directores Executivos, cada
grupo concentrará as suas actividades para obter os melhores resultados do que podemos
fazer juntos - na organização e em colaboração com outros.
Temos por objectivo estruturar o nosso trabalho dentro da Organização para ter o
maior impacto onde há mais necessidade - a nível de país. O que fazemos em Genebra ou
num escritório regional tem pouca importância se não tiver impacto nos países em
termos de melhor colaboração com a OMS, entradas mais pertinentes, melhor exploração
dos conhecimentos, melhor defesa global da saúde e melhor mobilização dos recursos.
Há três semanas reuni-me com os directores regionais para uma primeira discussão do
nosso trabalho comum. Tenho a intenção de trabalhar estreitamente com todos eles -
considero-os conselheiros essenciais. Iniciámos uma importante modernização da nossa
rede de informação tecnológica que nos permitirá atingir, graças a um botão, pela
voz ou pela imagem, os seis cantos do mundo em tempo real. A comunicação será melhor e
poupar-se-á dinheiro evitando-se viagens desnecessárias.
Também tenciono estabelecer relações mais directas com os representantes da OMS.
Dentro de poucos meses convidarei todos a ir a Genebra para aprender com a sua
experiência e para os apresentar à nova OMS e ao que esta tem para oferecer - a fim de
reforçar os laços com os estados membros - e em especial com os que têm mais
necessidade.
E convidarei o Conselho Executivo para estabelecer contactos mais estreitos e debates
mais pertinentes sobre os desafios que devemos enfrentar.
Devido às numerosas observações dos Orgãos Directivos sabem que os estados membros
querem resultados mais pertinentes e tangíveis dos nossos esforços a nível de país.
Chegou a altura do Secretariado responder. Estabelecemos um grupo especial para fazer
recomendações concretas sobre a maneira de tornar as ambições em realidade.
Precisamos um mecanismo de unificação capaz de ver em conjunto as nossas actuações
a nível dos países. Acontece que hoje estamos muito implicados num país e só
superficialmente no país vizinho que pode estar a lutar com problemas semelhantes.
A nossa relação com os países é recíproca: os estados membros devem comunicar-nos
o estado sanitário das suas populações. O êxito da OMS dependerá, em última
análise, da maneira como os estados membros se conformam com o imperativo de equidade e
justiça social exprimido na Saúde para Todos.
Resumindo, precisamos de mais unidade nos objectivos. Na minha ideia a OMS será o
lugar onde os países poderão procurar os melhores conhecimentos e as competências mais
modernas e onde conhecendo suficientemente bem as suas necessidades podemos ajustar os
nossos esforços em conformidade. Precisamos de uma estrutura unificada e que ao mesmo
tempo apresente a nossa diversidade específica - com os Escritórios Regionais prontos a
fazer todos os esforços tal como é o caso aqui na AFRO.
Em segundo lugar, sublinhei a necessidade que temos de ir mais longe.
A própria noção de uma agência especializada neste mundo interdependente tem pouco
significado se não conseguirmos integrar os nossos esforços com os outros parceiros.
Devemos encorajar a implicação de muitas pessoas no campo da saúde.
Desejo convidar todas as pessoas que podem realmente contribuir para se juntarem a
nós. Os nossos parceiros das NU. As instituições financeiras internacionais. A
comunidade das ONG. O sector privado. As pessoas e as suas comunidades.
Em terceiro lugar - sublinhei a necessidade de segurar o nosso trabalho com factos
reais.
Temos de ter valores precisos, relações adequadas, e a melhor evidência - não
chega ter a convicção moral de que a saúde é essencial. Criámos um grupo especial
chamado Evidência e Informação para Políticas. Esta base de conhecimentos é para uso
de todos. E para enriquecimento. Comunicaremos factos importantes. E o facto é que as
pessoas saudáveis ajudam a construir economias saudáveis.
Em quarto lugar - além de organizar o nosso trabalho em grupos coerentes, estamos a
lançar uma nova maneira de trabalhar.
Terão ocasião de ver mais do nosso trabalho organizado em projectos que
abrangem outros grupos e regiões e que frequentemente incluem outros parceiros. Grande
visibilidade, esforço intenso, objectivos tangíveis. Desde 21 de Julho lançámos dois
projectos - Fazer Recuar o Paludismo - de que voltarei a falar, e a Iniciativa Viver sem
Tabaco. Outros virão.
Resumindo - precisamos de fazer com que a OMS seja mais atraente para os utentes que
dela mais precisam, para que obtenham mais proveito das vossas políticas de saúde. Isto
é um processo de esperança. Podemos fazer melhor. Faremos melhor.
Senhor Presidente, Senhores Ministros, Colegas, Senhoras e Senhores,
Levantei vários problemas, problemas que conhecem bem. É fácil ficar desanimado pois
são problemas enormes. Contudo, há razões para ter esperança:
- O sector da saúde tem uma lista de êxitos obtidos nos últimos 40 anos; temos de
continuar nesta direcção;
- A ciência deu-nos muitos meios poderosos. Ainda precisamos de mais, mas já temos
alguns. Precisamos de empenho: político, financeiro e moral. O empenho pode fazer recuar
não só o paludismo mas muitas outras pragas. Há 75 anos isto não era verdade; a
ciência conseguiu que hoje seja possível;
- Cada vez compreendemos melhor como a saúde é importante para o desenvolvimento
económico. Os investigadores económicos levarão esta mensagem aos ministros das
finanças e aos primeiros ministros e às instituições financeiras internacionais; e
nós devemos confirmar estes factos. Depois podemos esperar que a saúde ocupe o primeiro
lugar da agenda do desenvolvimento onde tem o direito de estar.
Por isso tenho esperanças. E a África também deve ter. Na Assembleia Mundial da
Saúde realizada em Maio os estados membros decidiram - depois de lonas discussões -
alterar a atribuição regional do nosso orçamento regular - aumentando os recursos
atribuídos à África e à Europa. Chegar a acordo nestas questões é sempre difícil.
Mais recursos para duas regiões significa menos para as outras quatro. Mas a decisão foi
tomada - em si própria um sinal de solidariedade e verdadeiro multilateralismo na nossa
Organização.
Senhor Presidente, Senhores Ministros: prometo fazer tudo que estiver no meu poder para
que a OMS seja um melhor instrumento nas vossas mãos, um instrumento capaz de transformar
os nossos sonhos em realidade.
Juntos podemos ter importância para a saúde de gerações futuras - faremos brilhar
uma luz de esperança no novo século.